Mesmo com a decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de exigir que o do Fundo Partidário e do Fundo Eleitoral seja destinado de forma proporcional às campanhas de candidatas e candidatos negros, o perfil dos concorrentes a uma vaga na Câmara Municipal de São Paulo ainda é pouco diverso. Ao todo, 59,8% dos candidatos a vereador na capital paulista são caucasianos, sendo que 40,1% deles, são homens brancos. As informações são do Repositório de Dados do TSE e mostram as características predominantes entre os participantes. Por exemplo, 67,1% dos candidatos são declarados do gênero masculino, enquanto a presença de mulheres se limita a 32,9%. O grau de escolaridade, embora mais diverso, também representa uma característica marcante, com 51,7% dos concorrentes possuindo curso superior completo. Pela declaração, candidatas e candidatos casados também são maioria, sendo 42,5% dos declarantes; seguidos de solteiros (39,9%) e divorciados (14%). Veja abaixo as principais estatísticas dos concorrentes:

Para o professor da Federação dos Professores do Estado de São Paulo (FEPESP), Paulo Silvino, os dados refletem uma característica histórica da sociedade brasileira, que se sustenta “sob o patriarcado, a misoginia, o machismo e, até mesmo, sobre a homofobia”. “No Brasil, o patriarcalismo, o machismo e a misoginia fazem com que a política seja sempre vista como uma coisa masculina acima de tudo. Essa masculinização é um processo histórico que faz parte da cultural política brasileira, que determina que o mundo da rua e da vida pública é do homem. E o mundo da casa, da esfera privada e da religião é da mulher”, pontua. Silvino, que também é presidente Fundação Leonel Brizola Alberto Pasqualini, avalia que o grande problema das candidaturas majoritariamente brancas e masculinas, como no pleito deste ano para a Câmara de São Paulo, é o impacto do perfil dos eleitos para futuros projetos. Na avaliação dele, a falta de representatividade na vida política é maléfica para a sociedade plural em que vivemos. “Nós, enquanto indivíduos, tendemos a defender aquilo que nos assemelha, que nos sentimos pertencentes. Eu sou homem, branco, heterossexual e de classe média, mas eu me solidarizo com indivíduos negros e mulheres, por exemplo. Mas não é todo mundo que faz isso. Eu me solidarizo, mas não sei o que é ser homossexual, ser mulher ou negro, então a gente tende a reproduzir demandas dos grupos em que fazemos parte e isso é muito ruim de modo geral na política. É muito ruim que não tenhamos mais mulheres porque a sociedade é plural e, mais do que isso, a maioria da sociedade brasileira é negra e mulher, mas estas são minorias na política, em voz e capacidade de serem ouvidas”, avalia.

Além de expor as diferenças de gênero, uma avaliação mais profunda das informações do TSE também mostra as consequências das desigualdades raciais, citadas por Silvino, para o pleito. Os dados apontam que o número de mulheres brancas na corrida eleitoral para a Câmara de São Paulo, cerca de 390 concorrentes, é maior que os casos de candidatos homens pardos (323), pretos (198), indígenas (2) e amarelos (10). Ou seja, mesmo fazendo parte de uma minoria, que são as candidaturas femininas, mulheres brancas têm mais presença na disputa, enquanto homens não-brancos aparecem em menor quantidade. Essas características reforçam que parte dos concorrentes estão “em desvantagem” e demostram, até mesmo, que eles não possuem as mesmas chances efetivas na disputa. “Nós poderíamos ter mais indígenas na disputa e também mais pessoas defendendo pautas indígenas. Ou seja, de novo, eu não preciso ser negro para defender pautas contra o racismo, eu não preciso ser homossexual para defender pautas contra a homofobia. Mas eu preciso ter um espírito republicano alargado, uma ideia de sociedade ampla que faça com que a minha posição política seja aquela que contemple a cidadania. Se a sociedade tivesse esse espírito e entendesse que essas minorias são tão paulistanos como nós, eles defenderiam do mesmo modo. Então essa falta de interesse em outras pautas faz com que estas candidaturas também não tenham projeção.”

Veja abaixo a relação entre gênero e raça nesta eleição municipal de São Paulo:

Perfil médio dos candidatos

Além de analisar as características já citadas, cruzando os dados do Tribunal Superior Eleitoral é possível traçar o perfil médio dos candidatos à Câmara de São Paulo em 2020. Considerando as declarações sobre gênero, raça e estado civil, o perfil mais presente é o de homens brancos e casados, que somam 18,9% dos concorrentes de toda disputa. Ao mesmo tempo, analisando apenas as candidaturas femininas, o perfil predominante entre as mulheres também é branco, sendo que 19,6% das candidatas são caucasianas e casadas. Nesta análise, mesmo adicionando a escolaridade também como um fator determinante dos possíveis vereadores, o perfil médio dos concorrentes muda pouco. Ao todo, 11,4% dos participantes do pleito à Câmara paulista são homens brancos, casados e com ensino superior completo, enquanto alguns perfis, como de homens indígenas com ensino superior completo, são representados por apenas um candidato ou, até mesmo, inexistentes. Para o professor Paulo Silvino, embora São Paulo tenha uma “natureza transgressora” e seja palco de muitas mudanças, estes dados apontam que a disputa por uma vaga no Legislativo municipal ainda segue um padrão histórico conservador. “São Paulo por si só é uma cidade conservadora. Embora aconteçam muitas coisas revolucionárias e de enfrentamento político, predomina uma visão conversadora da política. Não é atoa que muitos candidatos se colocam como representantes de igrejas evangélicas, candidatos ligados à Polícia Militar ou à maçonaria, todas elas instituições predominantes de homens brancos de classe média”, pontua.

Confira abaixo seis perfis mais presentes na disputa, segundo dados disponibilizados pelo TSE:

Mudanças

Para mudar este cenário de desigualdades a níveis nacionais, propostas como a decisão do TSE sobre distribuição proporcional do Fundo Eleitoral, assim como a obrigatoriedade de que 30% das candidaturas de cada partido sejam femininas, são exemplos de pequenos avanços. No entanto, na visão de Silvino, embora sejam positivas, as propostas não serão responsáveis por “virar o jogo político” e mudar a atual hegemonia branca e masculina da política em São Paulo. Para ele, mudanças efetivas surgem com educação política e demandam tempo. “As reformas políticas são sempre feitas de maneira superficial. Elas podem colaborar para uma melhor equidade? Sim, mas por outro lado elas não são eficazes em termos de enfrentamento de uma estrutura política e cultural, que continua fazendo com que a disputa entre os candidatos seja desigual. É positivo ter cotas, é positivo ter o Fundo, mas ainda não é efetivo. A educação política é um processo histórico, sociológico e demanda tempo, mas quem sabe, com discussões sobre esse assunto, as pessoas se sintam incomodadas [com as desigualdades] e comecem a ver a necessidade de mudanças efetivas na cultura política. Aí a gente pode mudar esse jogo”, finaliza. O primeiro turno das eleições municipais acontece em 15 de novembro. Para municípios com mais de 200 mil eleitores, como São Paulo, o segundo turno deve acontecer em 29 de novembro.