Após polêmicas e acusações, Filipe Sabará, ex-candidato do Novo à Prefeitura de São Paulo, anunciou sua desfiliação do partido na última quinta-feira, 29. Por decisão da Comissão de Ética da sigla, que apontou inconsistências no currículo e desalinhamento com posicionamentos do Novo, Sabará foi expulso do partido no dia 22, uma semana antes de comunicar sua saída. Mesmo tendo até 31 de outubro para entrar com recurso e contestar o parecer, o ex-candidato optou por desistir oficialmente da Prefeitura e de sua vida política no Novo. “Devido às divergências ideológicas, o partido criou situações para me tirar das eleições. O processo estabelecido contra a minha candidatura é uma fraude, porque as denúncias que fizeram são falsas. Tomei uma chamada do próprio João Amoêdo dizendo que eu não poderia, em hipótese alguma, apoiar qualquer ação de Bolsonaro. O [João] Amoêdo se colocou como oposição ao governo federal e, assim, arruma subterfúgios para retirar os filiados do Novo que não concordam com este posicionamento, como aconteceu comigo”, disse Filipe Sabará em entrevista exclusiva à Jovem Pan.

Entre os fatores que o fizeram deixar a sigla, Sabará elegeu a “falta de confiança do partido nos próprios filiados” como o principal. “Para ingressar no Novo, participei de um processo seletivo que durou seis meses. Durante este período, analisaram todas as minhas informações e documentos. Fui aprovado no processo seletivo e em convenção partidária para me lançar candidato. É inacreditável falarem em inconsistências no meu currículo sendo que eles mesmos o analisaram no ano passado. Ou seja, essas inconsistências só apareceram depois que eu comecei a divergir do Amoêdo e elogiar certas atitudes do governo Bolsonaro. Não faz sentido eu permanecer em um partido que desrespeita as regras do seu estatuto.” Em ação protocolada na Comissão de Ética, o Novo acusou Sabará de fraudar o currículo com um suposto curso de Relações Internacionais na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), que foi desmentido pela instituição.

O ex-candidato permanece alinhado aos principais valores da sigla, como a defesa da democracia e do liberalismo econômico. No entanto, avaliou que a desfiliação foi necessária porque, segundo ele, as teorias das quais o partido acredita caminham separadas ao modo como agem seus filiados. “As ideias do Novo são boas, se fossem ruins, eu nem teria ingressado. O problema está em como o Novo opera. Eu já tinha sido avisado que existe o caciquismo no Novo e que o Amoêdo continua mandando. A sigla prega a política de ‘menos estado e mais cidadão’, mas não pratica isso dentro do próprio partido. Inverteram seus valores em prol do projeto de Amoêdo e do seu grupinho. É uma sigla que promove a novidade, mas pratica a velha política.” Sabará afirmou, ainda, que o partido enfrenta uma crise interna por conta de Amoêdo, um dos fundadores do Novo que presidiu a sigla entre 2011 e 2017. “Mesmo fora da Presidência do partido, ele continua comandando o Diretório Nacional e a Comissão de Ética Partidária. A mando de Amoêdo, existem pessoas estrategicamente alocadas em departamentos para perseguirem membros que pensam diferente. Inclusive, alguns deputados federais estão sendo perseguidos”, disse.

Futuro do Novo

Confirmando que há um racha na sigla, Sabará indicou que atualmente duas alas dividem o Novo. “Existe a ala pró-Brasil e a ala ‘amoedista’. A primeira delas é inteligente, defende o Brasil e por isso critica as más atitudes e apoia as boas ações do governo federal. A segunda ala é cega, simplesmente segue tudo que o Amoêdo diz e é completamente contrária à gestão Bolsonaro. Basicamente, o Amoêdo possui uma fissura com o presidente e passa o dia inteiro tuitando contra ele sem ao menos estar no Brasil. Ele está morando em San Diego [nos Estados Unidos]. É fácil criticar sem participar. Acho um absurdo, por exemplo, as críticas ao Guedes. Se ele é tão bom assim, por que não se oferece para ajudar o Brasil?“. Devido à crise, o ex-candidato aposta em um “futuro sombrio” para o partido. “Se continuar com o caciquismo e com Amoêdo mandando pelo Twitter, o Novo deve acabar em breve. É uma pena porque a sigla surgiu com a união de boas pessoas e boas ideias, mas o ego do Amoêdo está destruindo o partido que ele mesmo fundou”.

Na visão de Filipe Sabará, as consequências da crise partidária ultrapassam as eleições à Prefeitura de São Paulo e atingem outras regiões do Brasil. “Nas disputas municipais, o Novo está indo muito mal a nível nacional porque os candidatos não podem ser eles mesmos, precisam seguir uma cartilha de Amoêdo. Além disso, todos estão com medo de que aconteça com eles o que ocorreu comigo“. Na maior cidade do país, em São Paulo, o Novo não tem mais uma candidatura. No Rio de Janeiro, em Belo Horizonte e Recife, Ibope e Datafolha mostram, respectivamente, Fred Luz, Rodrigo Paiva e Charbel Maroun com apenas 1% das intenções de voto. Sobre o futuro na política, ele admitiu que foi procurado por diversos partidos que “se solidarizaram” com a sua situação, mas ainda não se decidiu em qual sigla se filiará. “A vida continua, tenho 37 anos e uma vida na carreira pública. Sempre me dediquei a gerar oportunidades para os cidadãos e vou continuar fazendo isso. Com relação às amizades que fiz no Novo, isso continua. Conheci muitas pessoas boas que também estão insatisfeitas porque colocaram seu dinheiro e sua vida à disposição do partido”, concluiu.