O livro “A Escolha: Como um presidente conseguiu superar grave crise e apresentar uma agenda para o Brasil”, que conta os bastidores da passagem de Michel Temer (PMDB) pela Presidência da República, foi lançado em outubro deste ano, mas suas revelações começaram a repercutir entre o meio político na noite de segunda-feira, 2. O texto, que é resultado de inúmeras entrevistas concedidas ao filósofo Denis Rosenfild, causou polêmica por revelar a relação do então vice-presidente com militares, como o general Eduardo Villas Bôas e o ex-chefe do Estado-Maior da Força, general Sérgio Etchegoyen, antes do impeachment de Dilma Rousseff (PT). A obra relata que Temer se reuniu com Villas Bôas e Etchegoyen entre 2015 e 2016. “Não foi uma vez. Foram vários encontros”, afirma Rosenfield. Dilma foi afastada do cargo oficialmente pelo Senado Federal em 31 de agosto de 2016.

O afastamento da ex-presidente foi considerado por muitos como um golpe após a Folha de S. Paulo divulgar gravações entre o então ministro do Planejamento Romero Jucá e ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, semanas antes da votação do impedimento. “Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel”, opinou Machado. “É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional”, continuou. “Com o Supremo, com tudo”, concordou Jucá. Rosenfild descreveu o primeiro encontro entre o peemedebista e Etchegoyen como “político”. A reunião entre os dois teria sido marcada pelo desgaste entre os militares e o Partido dos Trabalhadores. Os militares estavam descontentes com algumas medidas do governo, como a tentativa de derrubada da Lei da Anistia, a implementação do Plano Nacional de Direitos Humanos-3, de 2009, e a fundação da Comissão Nacional da Verdade, enumera o autor. “Qual seria o problema de um vice-presidente conversar com o comandante do Exército? Ninguém estava tramando um golpe. Eu tive a percepção de que Temer poderia ser o próximo presidente e propus o diálogo. E acertei”, diz o filósofo.  “Nós precisamos acabar de uma vez por todas com essa história de que militar é militar e civil é civil; são todos brasileiros, de modo que posso muito naturalmente chamar um militar para compor o ministério”, disse o ex-presidente. Temer nomeou Sérgio Etchegoyen como ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional em seu mandato.

Em nota, o ex-ministro-chefe chamou a repercussão do conteúdo do livro de “acusações infundadas”. O texto escrito por Etchegoyen também foi compartilhado pelo general Villas Bôas. “Parece que restou a alguns personagens no seu esforço vão de encontrar uma narrativa para esconder que eles isolaram os militares, desrespeitaram-nos, encenaram uma Comissão da Verdade claramente vingativa, afrontaram a lei para usurpar competências claras dos comandantes”, justificou Etchegoyen. “E, note bem, o governo nunca nos procurou, ao contrário de muitas outras lideranças políticas da época, não só o vice-presidente, inclusive parlamentares da base de apoio do governo. Além do que, os encontros constam da agenda do então vice-presidente, é só consultar. Ele (Temer) com sua conhecida educação e fidalguia, foi apenas uma das autoridades com quem conversamos, trocamos impressões e, eventualmente, nos aconselhados”, defendeu. Em seguida, ainda na defesa de Temer, o general afirmou que o peemedebista nunca demostrou “estímulo a ações ilegítimas ou convite para conspirações”. “A acusação é ridícula. Que poder teriam os militares para impor ao Congresso o resultado de um processo de impeachment no qual o Parlamento e o STF forma os grandes protagonistas, como manda a Constituição?”, finaliza a nota.