O slogan utilizado nas duas campanhas de Donald Trump à presidência da república está longe de ser novidadeiro. O conceito de “America First”, que em português significa “América primeiro”, surgiu durante a eclosão da Primeira Guerra Mundial para definir um princípio de neutralidade dos Estados Unidos em relação aos conflitos estrangeiros. Essa política externa só veio à baixo após o ataque japonês à Pearl Harbor, que levou os norte-americanos a integrarem a Segunda Guerra Mundial primeiro batalhando no Oceano Pacífico e, depois, enviando soldados para libertar os países europeus do nazi-fascismo. Com o fim do conflito e a criação de instituições como a ONU e a OTAN, os Estados Unidos despontaram como uma potência que atuaria na manutenção do sistema internacional.

Em entrevista à Jovem Pan, o professor de Relações Internacionais da FAAP, Carlos Gustavo Poggio, explicou que essas organizações, além das alianças estratégicas com os europeus, foram sustentadas por todos os chefes de governo norte-americanos, de Harry Truman a Barack Obama. “Donald Trump foi o primeiro presidente a olhar esse sistema de forma insatisfeita e querer retomar a ideia do ‘America First’, que existia antes da Segunda Guerra Mundial”, afirma. Para o especialista, Trump possui uma “visão contábil” das relações internacionais e não percebe os benefícios da liderança dos Estados Unidos. A retirada da nação do papel de liderança criou vácuos de poder que foram preenchidos principalmente pela China, o que fez, entre outras coisas, que democracias recuassem e novas rivalidade surgissem.

Dessa forma, o presidente eleito, Joe Biden, terá de lidar com uma realidade mundial muito diferente da que deixou quatro anos atrás, quanto terminou o seu mandato como vice-presidente de Obama. Em entrevista concedida à emissora de televisão norte-americana CBS News em maio, o conselheiro de segurança nacional de Biden, Antony J. Blinken, afirmou que, os Estados Unidos querendo ou não, “o mundo simplesmente não se organiza sozinho” e que agora descobriu-se o que acontece “quando algum outro país tenta tomar o lugar dos Estados Unidos ou, talvez ainda pior, ninguém o faz, e você acaba com um vácuo que é preenchido por eventos ruins”.

Com a saída de Donald Trump da Casa Branca, é esperado que o democrata retome a presença norte-americana nas principais organizações mundiais, recupere as relações diplomáticas e retome as alianças estratégicas com certos países. O primeiro sinal disso é a volta dos Estados Unidos ao Acordo de Paris. No entanto, é importante ressaltar que a campanha democrata para as eleições presidenciais foi pouco voltada para a política externa que, portanto, não deve ser uma das prioridades imediatas de Biden. Os interesses norte-americanos pelo mundo também continuam os mesmos, de forma que o que deve mudar nos próximos quatro anos está mais na abordagem da atuação e na ênfase dos valores que a nação defende.

Um bom exemplo disso é a própria China. O professor de Relações Internacionais da FAAP, Carlos Gustavo Poggio, explica que a visão que os norte-americanos têm da nação asiática piorou consideravelmente desde o início da pandemia de Covid-19. Portanto, a percepção do país como inimigo número um dos Estados Unidos possui um respaldo popular e deve continuar existindo mesmo com a eleição de Joe Biden. A diferença é que, provavelmente, a relação será baseada em uma estratégia diplomática mais refinada que a de Trump, que culpou a China abertamente pela disseminação do coronavírus pelo mundo em diversas ocasiões. Ao longo dos últimos quatro anos, o presidente também aplicou uma série de sanções comerciais à nação, mas ainda é uma incógnita se a guerra comercial entre os países terá ou não um fim com a eleição de Biden.

Por outro lado, é esperado que o democrata tenha uma postura mais firme e aplique ainda mais embargos contra a Coréia do Norte, visto que nos últimos quatro anos Trump não conseguiu impedir Kim Jong-un de continuar construindo o seu arsenal nuclear. Vladimir Putin também pode temer que a eleição do democrata represente complicações para o seu país. Biden deve priorizar a renovação do tratado de redução de armas nucleares, que expira em fevereiro de 2021, e pode aplicar novas sanções comerciais contra a Rússia. Já em Cuba, a população local comemorou a vitória de Biden. Os embargos impostos pelos Estados Unidos à ilha caribenha nos últimos anos trouxeram dificuldades reais que exauriram o povo, que espera uma melhoria na relação entre os países com o fim do governo Trump.

Na Europa, a eleição do democrata pode estar sendo vista com certo receio pelo primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson. No passado, tanto Biden quanto o ex-presidente Barack Obama não esconderam que preferiam que o Brexit não tivesse acontecido. Trump, por outro lado, apoiava abertamente a decisão. Para a Alemanha, porém, a sensação deve ser de alívio. Segundo o Pew Research Center, apenas apenas 10% dos alemães confiavam no republicano em relação à política externa, uma impopularidade que é maior até do que a da Rússia ou da China. A chanceler Angela Merkel já sinalizou que espera que, com a vitória de Biden, os Estados Unidos voltem a ser um dos seus aliados mais importantes na defesa de valores pelo mundo, como acontecia antes da ascensão do não intervencionismo de Trump.