Há exatos mil dias, a vereadora Marielle Franco (PSOL) e seu motorista, Anderson Gomes, foram assassinados a tiros na região central do Rio de Janeiro. Desde 14 de março de 2018, o crime estremece e influencia as políticas do Rio e nacional. Mesmo prendendo dois suspeitos de executar as mortes, até esta terça-feira, 8, a polícia não esclareceu as motivações do crime e se houve um mandante dos assassinatos. Entre indas e vindas polêmicas, as investigações seguem em curso. Apesar de não possuir resoluções legais, a execução da quinta vereadora mais votada no Rio nas eleições de 2016 tem consequências na sociedade.

Por um lado, após sua morte, a ativista dos direitos humanos tornou-se símbolo de luta e resistência, impulsionando, inclusive, outras candidaturas políticas de esquerda. Entre protestos de rua, manifestações nas redes sociais e produtos culturais, como livros e séries, parte da população tem se organizado em torno do pedido de justiça pelo assassinato. Em outra ponta da batalha ideológica, figuras públicas de grande repercussão não dão significado político à morte da psolista, equiparando-a aos demais assassinatos ocorridos no país. Defendendo este pensamento, uma parcela dos cidadãos se recusa a lamentar a morte de Marielle, questionando os posicionamentos políticos da vereadora e propondo que o episódio seja superado no debate público. Por fim, em outra ponta, as autoridades e a legislação trabalham para solucionar o duplo homicídio que virou notícia em todo o mundo, respondendo a pergunta que ainda não se fez calar: quem mandou matar Marielle e Anderson?

Entenda os desdobramentos do assassinato de Marielle Franco

  • 14 de março de 2018, 21h30

O relógio parou para Marielle Franco e Anderson Gomes às 21h30 de 14 de março de 2018, momento em que foram executados no centro do Rio de Janeiro. Naquela noite, por volta das 19h, a vereadora do PSOL participava de um debate com jovens negras na Casa das Pretas, no Bairro da Lapa. Ao término do evento, quando se dirigia para sua casa junto ao motorista Anderson Gomes e sua assessora, Fernanda Gonçalves Chaves, um carro emparelhou com o que ela estava e efetuou treze disparos. Deles, três tiros acertaram a cabeça e outro atingiu o pescoço de Marielle, que estava no banco traseiro do veículo. Anderson foi atingido por três balas nas costas. Sentada no banco do passageiro, Fernanda foi a única sobrevivente, já que os tiros foram disparados na diagonal, de acordo com as investigações. O carro de Marielle teria sido perseguido por cerca de quatro quilômetros até a concretização do crime. Os assassinos fugiram do local da execução, na Rua Joaquim Paralhes, no bairro do Estácio, sem roubar nenhum bem das vítimas.

  • Investigação

Submetida à esfera estadual, a investigação do crime está sendo conduzida pela Polícia Civil, por meio da Divisão de Homicídios da capital, e pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, através do Grupo Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco). Alegando que a polícia do Rio não teria dado respostas satisfatórias sobre o crime, a Procuradoria-Geral da República pediu a federalização da investigação em setembro de 2019. No entanto, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) rejeitou a solicitação. Uma vez aprovada, a federalização do caso deslocaria a responsabilidade da apuração do assassinato para a Polícia Federal e Ministério Público Federal. Com o objetivo de verificar possíveis irregularidades no trabalho estadual, a PF chegou a realizar uma “investigação da investigação”, que terminou em maio de 2019 com a conclusão de que houve tentativas de atrapalhar as investigações da Polícia Civil sobre o caso.

Desde o início da análise, a Polícia Civil trata o caso como uma execução e busca possíveis relações do crime com a milícia. As autoridades seguem estas linhas de investigação porque Marielle atuava em comunidades carentes e, muitas vezes, seus projetos políticos atropelavam os interesses de milicianos. Mesmo permanecendo aberta, a apuração do assassinato já apontou alguns fatos. Entre eles, a conclusão de que as munições disparadas contra a vereadora e o motorista são de uso restrito da Polícia Federal e saíram de uma submetralhadora HK MP5, modelo usado por tropas de elite. 

  • Quem matou Marielle e Anderson?

Os ex-policiais militares Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz são apontados pela investigação como os autores da execução de Marielle Franco e Anderson Gomes. Segundo a polícia, Lessa efetuou os disparos enquanto Queiroz conduzia o veículo, perseguindo as vítimas. Eles se tornaram alvo da investigação em outubro de 2018, a partir de uma denúncia anônima. Os acusados foram presos às vésperas do crime completar um ano, em 12 de março de 2019. Ambos respondem por duplo homicídio triplamente qualificado por motivo torpe, emboscada e sem dar chance de defesa às vítimas. Os ex-PMs seguem presos, aguardam julgamento e negam o envolvimento nas mortes, afirmando que na data do crime estavam assistindo a um jogo do Flamengo em um bar.

  • Qual foi a motivação do crime?

De acordo com a denúncia apresentada pelo Ministério Público contra os ex-PMs Lessa e Queiroz, o crime teve “motivo torpe, interligado a abjeta repulsa e reação à atuação política de Marielle na defesa de suas causas”. Desta forma, segundo o documento, a vereadora foi assassinada em decorrência de sua militância pelos direitos humanos. Apesar de Lessa ter pesquisado a rotina da psolista e de outras figuras da esquerda, como o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL), as autoridades não excluem a hipótese de os acusados terem sido contratados por alguém.

  • Mais de 65 prisões

Mesmo sem elucidar todas as questões que envolvem o assassinato de Marielle e Anderson, a investigação em torno da execução esbarrou e elucidou diversos outros crimes – entre eles, demais homicídios, extorsões, tráfico de armas e venda ilegal de terras. Desta forma, ao menos 65 integrantes de quadrilhas desmanchadas pela apuração foram presos. Apesar de próximos ao caso, nem todos possuem envolvimento direto com a morte da vereadora e do motorista.

As operações responsáveis por prender suspeitos de outros delitos foram, consecutivamente, a Operação Lume, que prendeu Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz, apontados como os assassinos de Marielle e Anderson; Entourage, deflagrada contra suspeitos de integrar uma milícia atuante na Zona Oeste do Rio e que capturou 20 criminosos; Submersus 1, força-tarefa que deteve quatro pessoas acusadas de envolvimento no descarte da arma usada no crime contra Marielle e Anderson; Intocáveis 1, operação que capturou seis pessoas ao desmantelar um grupo envolvido com a milícia, suspeito de comprar e vender imóveis construídos ilegalmente na Zona Oeste do Rio; Intocáveis 2, um desdobramento da Intocáveis 1, que capturou 32 pessoas envolvidas com ações da milícia nas comunidades de Rio das Pedras, Muzema e, por fim, a Submersus 2, que apreendeu o bombeiro Maxwell Corrêa, o Suel, que teria emprestado o próprio carro para ajudar a sumir com as armas usadas no assassinato da vereadora.

  • Quem mandou matar Marielle e Anderson?

O Ministério Público e a Polícia Civil não confirmam e não descartam a possibilidade de que o crime tenha sido encomendado. No entanto, os órgãos apuram, sob sigilo, a existência de mandantes do crime. Por isso, mil dias após a execução, ainda não se sabe quem mandou matar Marielle e Anderson, nem se, de fato, o crime possui um mandante.

  • Repercussões políticas

Desde a noite de 14 de março de 2018, o assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes impacta nos desdobramentos da política nacional. Durante a investigação, o nome da família Bolsonaro chegou a surgir no caso por meio de um depoimento de um dos porteiros do condomínio Vivendas da Barra, onde viviam o presidente Jair Bolsonaro e o PM reformado Ronnie Lessa. Segundo o funcionário do empreendimento, na noite do crime, “seu Jair” teria autorizado a entrada do ex-PM Élcio de Queiroz no condomínio. No entanto, pouco tempo depois, o porteiro voltou atrás na declaração. Desta forma, a investigação descartou a participação da família Bolsonaro na execução da vereadora e do motorista. A família do presidente classifica os assassinatos como “um crime comum” e “mais uma morte no Rio de Janeiro”. Ao longo dos últimos mil dias, outras autoridades políticas têm se manifestado sobre a execução. Entre as principais vozes que clamam por justiça, está o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL). Padrinho político de Marielle, Freixo aponta publicamente a milícia como provável mandante do crime.

Além dele, desde a execução, outras candidaturas de esquerda têm se levantado. Após uma intensa luta por respostas, Monica Benicio, viúva de Marielle, decidiu ingressar na política institucional e lançar-se candidata a vereadora nas eleições municipais deste ano. Com 22.999 votos, Benicio foi eleita pelo PSOL no Rio de Janeiro. Procurada pela reportagem, ela optou por não conceder uma entrevista por “estar muito abalada”. No entanto, em nota, a viúva esclareceu seu sentimento frente aos mil dias do assassinato de Marielle. “Estou há mil dias cobrando o Estado brasileiro sobre o atentado político contra Marielle Franco. Sem resposta. Até agora ninguém foi sequer julgado. São mil dias sem paz, uma dor infinita que atravessa meu peito diariamente desde a noite de 14 de março de 2018. No dia 15, foi a última vez que a vi. Ela já não tinha mais vida”. No comunicado, Monica cobra as autoridades do país pelas questões não esclarecidas do crime. “Me retiraram a minha esposa, o grande amor da minha vida. Arrancaram do Rio uma liderança política que lutava por dias melhores para o nosso povo. […]. Queremos uma outra sociedade, onde prevaleça o respeito à vida para todas, todos e todes. E essa sociedade que queremos não é possível de ser construída sem justiça, sem saber quem mandou matar Marielle Franco”, concluiu.