A cotação dos profissionais de tecnologia está em alta no mercado de trabalho, mas isso não significa que a vida de desenvolvedores, analistas de infraestrutura e especialistas em segurança cibernética seja fácil.

Apesar do ambiente descontraído de alguns escritórios de algumas empresas (quem não invejou a sede colorida do Google com sua quadra de vôlei de praia?), o setor ainda tem uma série de barreiras para superar e nem todo mundo que entra se sente à vontade.

O g1 ouviu profissionais de TI, especialistas em carreira e listou sete desafios atuais do setor e dos profissionais que trabalham nele.

Mito de que ‘TI é coisa de gênio’
Maioria é homem, branco e de classe média e alta
A ilusão do ‘ambiente descolado’
Necessidade de estudo constante
Falta de foco
Entrar na TI só porque ‘paga bem’
O perigo da alta rotatividade
1: Mito de que ‘TI é coisa de gênio’
Uma imagem que precisa ser desfeita de cara, especialmente por quem está entrando na área, é a de que só os “crânios” podem trabalhar com tecnologia.

Para os especialistas, quem se interessa por tecnologia precisa de um “kit de conhecimentos” de nível básico: português, matemática e um pouco de inglês.
O presidente da associação de empresas de tecnologia Assespro, Ítalo Nogueira, explica que todos esses conhecimentos podem ser aprendidos e reforçados em cursos, alguns deles, gratuitos.

Nogueira também indica buscar órgãos como as secretarias de educação de prefeituras e governos estaduais para se informar sobre bolsas e programas de capacitação.

  1. Maioria é homem, branco e de classe média e alta
    O aquecimento do mercado oferece uma oportunidade única para desbancar outro mito: de que a profissão é feita basicamente para homens brancos que têm condição de pagar por uma boa formação.

No setor de tecnologia, as mulheres são apenas 30% da força de trabalho no Brasil, segundo pesquisa feita em conjunto por PretaLab e ThoughtWorks.
O levantamento, chamado #QUEMCODABR, questionou 693 pessoas em 20 estados brasileiros e no Distrito Federal entre 2018 e 2019 para saber o perfil dos profissionais de tecnologia no país.

Somente 36,9% dos entrevistados se declararam negros/pretos ou pardos. Quase 80% se disseram heterossexuais.

Josiane Santiago rompeu estes e outros padrões ao entrar para a TI aos 52 anos. Ela deixou a carreira de fisioterapeuta e começou um curso na Reprograma, projeto voltado a mulheres de baixa renda.

Depois de conseguir o primeiro emprego na área, conquistou uma das 20 vagas disputadas por 1.200 pessoas na empresa de tecnologia CI&T. A seleção visava incluir mais negros no mercado e foi feita em parceria pela ONG Educafro.

“O que eu vejo é que, quando você fala que passou por uma iniciativa para incluir pessoas negras na empresa, não olham com bons olhos, [acham] que não tinha a habilidade suficiente, entrou porque era uma pessoa negra”, diz Josiane. “Mas a gente não acredita. Nós entramos como júnior. Eu tô ali no pontapé para ser uma analista de sistema pleno.”

  1. A ilusão do ‘ambiente descolado’
    Alguns benefícios do mercado de tecnologia como horários flexíveis e ambiente moderno — com opções de descanso, lazer e alimentação o dia todo — podem mascarar longas jornadas para a entrega de projetos, conta a coordenadora pedagógica da Reprograma, Liana Alice.

Profissionais ouvidos pelo g1 confirmam que a pressão por entregar projetos com prazos curtos e mudanças de direcionamento são constantes.

“Em alguns momentos vai ser um trabalho mais puxado nos processos mentais e emocionais. A pessoa está constantemente tendo que aprender, se desenvolver, acaba tendo comparações entre desenvolvedores, uns com os outros”, explica Liana.

  1. Necessidade de estudo constante
    A principal dica para quem se interessa por tecnologia é gostar de estudar. Parar nunca é opção porque, ao contrário de algumas profissões mais “tradicionais”, a área de TI é influenciada quase que diariamente pelas novas tecnologias. Ou seja, a necessidade de atualização é constante.

A boa notícia é que existem inúmeros conteúdos disponíveis de forma paga e gratuita online e boa parte das empresas de tecnologia não exige nenhum tipo de formação tradicional como pré-requisito, explica Fernanda Milani, head de gente e gestão da Ambev Tech – braço de tecnologia da cervejaria.

“Qualquer pessoa interessada pode ter acesso a cursos online, hackaton (maratona de programação), workshops, eventos e comunidades para todos os níveis de experiência, do iniciante ao avançado”, conta Fernanda.
Essa necessidade também pode levar a mais pressão. “Você nunca vai parar de estudar, tem que estar sempre se atualizando e grande parte do seu dia vai ser resolvendo problemas, construindo coisas complexas. Então, pode esperar por momentos de sobrecarga e estresse”, alerta a programadora e mentora Anne Lesinhovski, que tem um canal no Instagram sobre TI.

  1. Falta de foco
    Por conta das novidades constantes no setor, um erro comum é não estabelecer um objetivo para os estudos. Segundo os especialistas, não adianta apenas fazer diversos cursos, sem um foco definido.

“Tem várias linguagens e você fica deslumbrada. O meu conselho para quem quer investir na área, como fiz, seria escolher uma ferramenta e avançar nela ao máximo antes de escolher outra”, conta a analista de dados da Vale Jussara Procópio.

Se especializar em uma linguagem ou solução é uma dica para se manter relevante no mercado. Os profissionais que conseguem comprovar domínio de uma tecnologia (seja por meio de cursos ou com projetos realizados) são os mais cobiçados – e, por isso, recebem melhores salários.

Para saber os conhecimentos mais procurados pelos recrutadores, vale a pena ficar de olho nas descrições de ofertas publicadas em plataformas como LinkedIn, Gupy, Kenoby e outras.

  1. Entrar na TI só porque ‘paga bem’
    Uma questão que nem sempre fica clara para quem está mudando para a TI é que, apesar dos bons salários iniciais, essa mudança às vezes significa voltar para uma posição júnior na carreira.

Quem já atua há bastante tempo em outra função provavelmente vai precisar se acostumar com um salário menor no começo.

Um conselho para quem passa por esse momento é se preparar financeiramente para um período de pelo menos um ano ganhando menos – esse tempo pode variar de acordo com o desenvolvimento do profissional e a empresa onde ele está atuando.

“A migração é uma aposta. O profissional pode sair de um cargo onde é sênior e ir parar em uma posição júnior. Se quiser migrar de carreira, esteja sempre com a cabeça aberta para esse tipo de situação”, aponta Caio Arnaes, diretor da Robert Half.

  1. O perigo da alta rotatividade
    Com tantas vagas disponíveis, os profissionais das áreas mais desejadas têm mais poder de barganha para pedir condições melhores – ou encontrar empregos em companhias diferentes.

Mais da metade dos diretores de tecnologia (CIO) entrevistados pela Robert Half apontam que a retenção de talentos é um dos principais desafios para 2022. Do lado dos profissionais, é preciso ter cuidado para não acabar prejudicando a imagem em processos seletivos.

Para o RH de uma empresa que está contratando, esse tipo de movimentação passa a impressão de que a pessoa “não se comprometeu com as empresas pelas quais passou”, explica Aline Oliveira, especialista em recrutamento de profissionais de TI.
“Poder escolher onde você pode trabalhar é um baita privilégio. Mas é preciso reconhecer isso, em especial, levando em conta o desemprego no Brasil”, argumenta o programador Jean Schwab.

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