Conforme esclarece Yuri Silva Portela, pós-graduado e fundador do projeto social Humaniza Sertão, envelhecer em situação de rua é uma das experiências humanas mais extremas de vulnerabilidade, e ainda assim permanece como um dos territórios menos explorados pela medicina geriátrica brasileira. O idoso em situação de rua acumula sobre si todas as fragilidades do envelhecimento somadas a todas as violências da exclusão social: exposição climática, insegurança alimentar, ausência de cuidados básicos de higiene, violência física e privação de qualquer forma de suporte afetivo ou institucional continuado.
Vamos explorar ao longo deste texto o que essa realidade exige da medicina e o que o sistema ainda não aprendeu a oferecer. Leia com atenção!
O perfil invisível do idoso em situação de rua
O idoso em situação de rua frequentemente não é identificado como tal pelos serviços de saúde, seja porque não acessa esses serviços de forma regular, seja porque quando os acessa, em episódios agudos que o levam a pronto-socorros e UPAs, recebe atendimento voltado à queixa imediata sem qualquer avaliação do contexto de vida que produz e agrava seu adoecimento. Sem endereço fixo, sem documentos em muitos casos e sem vínculo com a atenção primária, esse idoso é invisível para o sistema antes de se tornar uma emergência para ele.
Como ressalta o doutor Yuri Silva Portela, a população idosa em situação de rua apresenta um perfil de morbidade que combina doenças crônicas não tratadas, sequelas de traumas físicos, transtornos mentais graves, uso problemático de álcool e outras substâncias e desnutrição avançada. Esse conjunto de condições, que em qualquer outro contexto demandaria acompanhamento multidisciplinar intensivo, é frequentemente abordado de forma fragmentada e pontual, sem continuidade e sem vínculo clínico duradouro.
O envelhecimento acelerado pela exclusão
A rua envelhece mais rápido. De fato, estudos internacionais demonstram que pessoas em situação de rua apresentam perfil de saúde equivalente ao de indivíduos 10 a 20 anos mais velhos da população geral, e que a expectativa de vida nessa população é dramaticamente reduzida. Para o idoso que chegou à rua já na terceira idade, seja por ruptura familiar, falência financeira ou adoecimento mental progressivo, esse envelhecimento acelerado se soma a um organismo que já opera com menor reserva funcional.

Como considera Yuri Silva Portela, reconhecer o envelhecimento precoce induzido pela exclusão social é fundamental para que o sistema de saúde ofereça uma resposta proporcional à complexidade clínica desse paciente. Tratar o idoso em situação de rua como se suas necessidades fossem equivalentes às de um adulto jovem sem teto é uma falha clínica com consequências graves e evitáveis.
Barreiras de acesso que o sistema ainda não removeu
O idoso em situação de rua enfrenta barreiras de acesso ao sistema de saúde que vão muito além da falta de documentos ou de endereço. Afinal, fatores como a ausência de cuidados de higiene, que torna o acesso a certas unidades constrangedor, a dificuldade de comparecer a consultas agendadas quando não há onde guardar pertences ou garantir segurança durante a ausência, a desconfiança acumulada por décadas de exclusão e humilhação institucional, produzem um afastamento do sistema que o sistema frequentemente interpreta como desinteresse do paciente.
Conforme expressa Yuri Silva Portela, a medicina que precisa ser levada até o paciente, e não apenas ofertada em unidades fixas que ele não consegue acessar, é especialmente necessária nesse contexto. Equipes de saúde que atuam nas ruas, como consultórios na rua e iniciativas de saúde comunitária itinerante, representam o único modelo capaz de romper esse ciclo de exclusão com consistência.
O que uma medicina humanizada pode oferecer ao idoso sem teto?
Cuidar do idoso em situação de rua exige que a medicina reveja seus próprios critérios de sucesso. A cura, a adesão a protocolos e a estabilização de parâmetros laboratoriais são metas secundárias quando o paciente não tem onde dormir, o que comer ou a quem recorrer. O objetivo primário é o vínculo: estabelecer uma relação de confiança que permita oferecer cuidado continuado, mesmo que parcial e imperfeito, a alguém cuja experiência de vida ensinou que as instituições abandonam.
Por fim, Yuri Silva Portela salienta que os projetos de saúde comunitária que chegam até as populações mais vulneráveis, levando atendimento, escuta e dignidade a quem o sistema formal não alcança, são a expressão mais concreta do que a medicina pode ser quando decide que ninguém está fora do seu alcance.
