Levantamento do IBGE mostra que preocupação com privacidade e segurança digital superou o preço como principal motivo para adiar o primeiro aparelho
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística registrou, pela primeira vez desde o início da série histórica em 2016, uma queda na proporção de crianças entre 10 e 13 anos que possuem celular próprio no Brasil. Os dados, divulgados no módulo temático sobre tecnologia da informação e comunicação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, mostram que o percentual caiu de 56,7% para 55,2% entre 2024 e 2025. Para famílias que enfrentam diariamente a decisão sobre quando dar o primeiro celular aos filhos, o levantamento traz uma informação relevante: a maioria dos pais que adiam essa decisão hoje o faz por preocupação com segurança, não mais por uma questão de custo do aparelho.
A mudança no principal motivo apontado pelos responsáveis
Segundo o levantamento, entre os responsáveis por crianças que ainda não possuem celular, a preocupação com privacidade e segurança foi o motivo mais citado, respondendo por 32% das respostas, um aumento de 7,8 pontos percentuais em comparação com o ano anterior. Esse dado representa uma mudança significativa no perfil das justificativas apresentadas pelas famílias brasileiras, já que em 2022 o principal motivo alegado para a ausência de um celular próprio entre crianças dessa faixa etária ainda era o alto custo do aparelho, com a preocupação de segurança e privacidade ocupando apenas a quarta posição entre as justificativas mais citadas.
Essa inversão de prioridades, de uma justificativa predominantemente econômica para uma preocupação centrada em proteção digital, sugere que as famílias brasileiras passaram a enxergar o celular menos como um item de consumo inacessível e mais como uma ferramenta que exige avaliação cuidadosa sobre os riscos envolvidos antes de ser entregue a uma criança. Gustavo Fontes, analista do IBGE responsável pela pesquisa, avalia que essa mudança reflete uma inquietação crescente das famílias com a segurança das crianças, especialmente em relação à exposição delas nas redes sociais.
O que mais os dados do IBGE revelam sobre o comportamento infantil
Além da queda na posse de aparelhos, a pesquisa identificou uma leve redução no acesso à internet entre crianças de 10 a 13 anos, independentemente do dispositivo utilizado, caindo de 84,9% para 84,4% no mesmo período. Esse grupo etário foi o único, entre todas as faixas de idade pesquisadas pelo IBGE, a registrar queda tanto na posse de celular quanto no acesso à internet em 2025, enquanto as demais faixas etárias mantiveram trajetória de crescimento, elevando o uso geral de celulares para 89,8% da população brasileira como um todo.
Fontes também destaca que 2025 foi marcado pela implementação de restrições ao uso de celulares em ambientes escolares em diversas partes do país, uma medida que pode ter contribuído diretamente para a tendência observada entre a faixa etária mais jovem analisada pela pesquisa. Entre as crianças que permanecem desconectadas da internet, o motivo mais citado continua sendo a falta de necessidade, mas a preocupação com privacidade e segurança já aparece em segundo lugar entre as justificativas apresentadas pelos responsáveis, reforçando a consistência dessa mudança de comportamento em diferentes aspectos do levantamento.
O contraste com o crescimento do uso de internet entre os idosos
Enquanto a faixa de 10 a 13 anos registrou recuo, a pesquisa do IBGE revelou uma trajetória completamente oposta entre os brasileiros com mais de 60 anos. Em 2025, 74,5% dos idosos brasileiros utilizavam a internet, um aumento de 4,4 pontos percentuais em relação a 2024 e de mais de 29 pontos percentuais na comparação com 2019. A proporção de idosos que possuem celular próprio também cresceu, passando de 78,3% em 2024 para 80,3% em 2025, consolidando uma tendência de inclusão digital crescente entre a população mais velha do país.
Esse contraste entre os dois extremos etários da pesquisa, com crianças reduzindo o uso de celular por preocupação com segurança e idosos aumentando sua presença digital de forma constante, ilustra como diferentes gerações brasileiras estão vivendo movimentos completamente distintos em relação à tecnologia neste momento específico. Considerando a população geral do país, o uso de internet subiu de 89,2% para 90,5% entre 2024 e 2025, reforçando que o recuo identificado entre crianças de 10 a 13 anos é uma exceção pontual dentro de um cenário nacional de expansão contínua do acesso digital.
O que essa tendência sinaliza para famílias e empresas de tecnologia
Para famílias que ainda estão decidindo o momento certo de entregar o primeiro celular aos filhos, os dados do IBGE oferecem um retrato mais amplo de como outras famílias brasileiras têm lidado com essa mesma decisão, reforçando que a preocupação com privacidade e segurança digital deixou de ser uma posição isolada para se tornar a justificativa predominante entre quem opta por adiar esse passo. Esse movimento também aumenta a pressão sobre empresas de tecnologia para que desenvolvam produtos com controles parentais mais robustos e proteção de dados incorporada desde a concepção do dispositivo, respondendo diretamente à principal preocupação identificada entre os responsáveis brasileiros nesta edição da pesquisa.
Fontes consultadas:
Agência Brasil: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2026-07/proporcao-de-criancas-com-celular-cai-seguranca-e-motivo-mais-citado
Fast Company Brasil: https://fastcompanybrasil.com/impacto/menos-criancas-celular-proprio-brasil/
