A discussão sobre o uso da energia de Itaipu ganhou um novo componente tecnológico no Paraguai: a construção de uma estrutura de computação de alto desempenho voltada à inteligência artificial. O projeto foi anunciado em 21 de outubro de 2026 pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos e envolve a empresa norte-americana Crusoe e a desenvolvedora paraguaia Araico.
A proposta prevê que a infraestrutura seja alimentada por eletricidade de Itaipu e instalada na região de Yguazú, no departamento de Alto Paraná. Apesar da relevância do anúncio, permanecem sem resposta pública alguns pontos essenciais para avaliar o empreendimento, principalmente o contrato com a Administração Nacional de Eletricidade (ANDE), a localização exata da unidade e os termos efetivos do fornecimento de energia.
O que foi anunciado sobre o centro de IA
De acordo com a cobertura do ABC Color, a Crusoe e a Araico pretendem construir uma instalação dedicada à computação de alto desempenho para aplicações de inteligência artificial. A parceria combina a experiência da companhia dos Estados Unidos em infraestrutura computacional com a atuação da empresa paraguaia no desenvolvimento do projeto local.
O anúncio ocorreu durante a visita do vice-secretário de Estado Christopher Landau a Assunção, realizada entre 19 e 21 de outubro. O cronograma divulgado aponta para o início das obras em 2027, com previsão de conclusão em 2028. Também foi citada uma tarifa de energia de US$ 0,05 por quilowatt-hora, embora os detalhes contratuais e as condições de aplicação desse valor ainda não estejam disponíveis publicamente.
O empresário responsável pelo projeto classificou o empreendimento como potencialmente um dos maiores investimentos privados da história do Paraguai. A afirmação dimensiona a expectativa em torno da iniciativa, mas não substitui a divulgação de informações sobre o valor total do investimento, a capacidade computacional prevista ou a quantidade de energia que será demandada pela operação.
Contrato com a ANDE é um dos principais pontos em aberto
Até a publicação da reportagem do ABC Color, a ANDE não havia informado os termos do contrato relacionado ao fornecimento de energia. Essa ausência impede confirmar como será estruturada a relação entre a empresa estatal, as companhias privadas e a usina binacional. Também não está claro se o acordo já foi assinado, se está em negociação ou se depende de autorizações adicionais.
Essa informação é relevante porque um centro de computação para inteligência artificial tende a exigir fornecimento contínuo e previsível de eletricidade. No caso de Yguazú, a proximidade com Itaipu aparece como um dos elementos centrais do projeto, mas a fonte disponível não detalha a conexão física com a rede, a subestação responsável pelo atendimento ou os mecanismos usados para garantir a operação.
A localização exata também continua sem confirmação. A referência a Yguazú delimita a área geral do empreendimento, mas não identifica o terreno, o parque industrial ou a estrutura onde os equipamentos serão instalados. Sem esses dados, ainda não é possível avaliar publicamente aspectos como infraestrutura local, impactos sobre a rede elétrica ou eventuais exigências ambientais e regulatórias.
Repercussão envolve Brasil e a energia de Itaipu
O anúncio também repercutiu no Brasil por causa da interpretação de que o Paraguai teria “vendido” parte da energia de Itaipu. Essa formulação foi registrada em uma publicação repercutida pelo Head Topics, mas não deve ser tratada como confirmação de um negócio nesses termos.
O que está confirmado nas informações disponíveis é a intenção de utilizar energia de Itaipu para abastecer o projeto de computação. Ainda faltam documentos oficiais que esclareçam a origem contratual da eletricidade, o volume reservado, a participação da ANDE e a forma como o fornecimento se relacionará com as regras da usina binacional, administrada por Paraguai e Brasil.
Por isso, a expressão “venda da metade de Itaipu” exige cautela. Ela pode simplificar uma operação de fornecimento de energia ao setor privado, mas não comprova, por si só, uma transferência de participação na usina ou uma mudança na divisão da energia entre os dois países. A confirmação dependerá de manifestações oficiais e da divulgação dos contratos correspondentes.
Próximos passos para medir o impacto
Para o mercado de tecnologia, o projeto sinaliza o interesse do Paraguai em atrair infraestrutura voltada à inteligência artificial, uma área que depende de grande capacidade computacional e disponibilidade energética. Para consumidores, empresas e autoridades brasileiras, o ponto central será entender se a operação afetará a disponibilidade de energia, a remuneração da binacional ou as condições negociadas no sistema paraguaio.
Também será necessário acompanhar a evolução do cronograma entre 2027 e 2028, além da confirmação da capacidade instalada, do investimento e dos licenciamentos. Até que esses dados sejam divulgados, o centro de IA de Yguazú deve ser tratado como um projeto anunciado, com tarifa mencionada e prazo preliminar, mas ainda sem transparência suficiente sobre sua execução.
