Segundo o engenheiro Felipe Schroeder dos Anjos, a baixa reciclagem no Brasil não se explica apenas pela falta de consciência da população. Os números ajudam a entender o paradoxo. O país gerou quase 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos em 2023, cerca de 382 quilos por habitante, e reciclou só 8,3% desse total, de acordo com o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2024. A distância entre a separação feita em casa e o material que de fato volta à indústria revela falhas na coleta seletiva.
O mito de que tudo depende do morador
Separar o lixo em casa é importante, mas não resolve nada se não houver quem recolha o material separado. Dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, analisados pelo Ipea, mostram que 61,6% dos municípios brasileiros não tinham coleta seletiva formalizada pela prefeitura em 2022. Em boa parte do país, portanto, o esforço do morador termina no mesmo caminhão do lixo comum.
Mesmo onde o serviço existe, a cobertura costuma ser parcial. Muitas cidades atendem apenas alguns bairros, com frequência irregular e pouca informação sobre dias e horários. Na análise de Felipe Schroeder dos Anjos, a falta de regularidade desestimula a população, que deixa de separar os resíduos quando percebe que o material não tem destino garantido.
Quem de fato abastece a indústria recicladora
Os catadores ocupam papel central nessa cadeia. Segundo o mesmo Panorama, catadores informais são responsáveis por cerca de dois terços dos resíduos que chegam à indústria recicladora, enquanto a coleta seletiva municipal responde por uma fatia bem menor. Sem esse trabalho, muitas vezes realizado sem remuneração adequada nem proteção, a taxa de reciclagem nacional seria ainda mais baixa.

Há, contudo, um limite nesse modelo. Como dependem da venda do material, os catadores priorizam itens de maior valor, como alumínio, papelão e alguns plásticos. Embalagens multicamadas e plásticos de baixo valor acabam no aterro, ainda que sejam tecnicamente recicláveis, porque não compensam o esforço da coleta e da triagem. Sem uma estrutura pública que recolha também esses itens, parte relevante do material reciclável continua sendo enterrada.
Economia circular exige um sistema completo
A reciclagem funciona como uma corrente com vários elos. A separação na fonte, a coleta diferenciada, a triagem em centrais adequadas e a existência de compradores para o material precisam operar juntas. Felipe Schroeder dos Anjos destaca que basta um elo fraco para comprometer todo o resultado, como ocorre quando a central de triagem recebe resíduos tão contaminados que não podem ser aproveitados.
A logística reversa amplia a responsabilidade. Pela Política Nacional de Resíduos Sólidos, fabricantes, importadores e comerciantes também respondem pelo retorno de embalagens e produtos após o consumo. Quando o design da embalagem considera a reciclabilidade desde a origem, o material ganha valor de mercado e passa a circular com mais facilidade. Na prática, embalagens feitas de um único tipo de plástico têm destino muito mais simples do que as compostas por camadas de materiais diferentes.
Caminhos para elevar a reciclagem
Contratar cooperativas de catadores como prestadoras de serviço é uma das medidas mais eficazes. Remuneradas pela coleta e triagem, e não apenas pela venda do material, as cooperativas ganham estabilidade e capacidade de investir em equipamentos. Pontos de entrega voluntária e campanhas educativas permanentes completam a estrutura, desde que ofereçam informações claras sobre o que pode ser separado e onde entregar cada material.
A fração orgânica também merece atenção. Restos de alimentos representam grande parte do lixo domiciliar e, quando misturados, contaminam os recicláveis secos. Programas de compostagem reduzem o volume enviado aos aterros e melhoram a qualidade do material separado, ressalta Felipe Schroeder dos Anjos, aproximando o país de uma economia efetivamente circular.
