Na interpretação de Elmar Varjão, CEO de Engenharia do Grupo André Guimarães, a formação de talentos se tornou um dos fatores que mais definem a capacidade de execução das empresas de engenharia. O desafio não está apenas em contratar mais gente, mas em preparar profissionais para obras cada vez mais complexas.
Há uma tensão evidente nesse quadro. Ao mesmo tempo em que cresce a demanda por infraestrutura urbana, rodoviária e logística, as construtoras relatam dificuldade para encontrar engenheiros, encarregados e técnicos com experiência suficiente para liderar frentes de grande porte, como pontes, terminais e centros logísticos.
Entender por que essa lacuna se formou, e por que ela não se resolve só com novas contratações, ajuda a enxergar quais caminhos as empresas vêm adotando para fechá-la. Nos próximos tópicos, você vai conhecer as mudanças que estão redesenhando a forma como o setor desenvolve suas equipes.
Por que a experiência virou recurso escasso?
Grande parte do conhecimento prático da construção pesada está concentrada em profissionais com décadas de carreira. Muitos aprenderam no próprio canteiro, acompanhando obras de longa duração, e esse saber raramente foi registrado em manuais, procedimentos ou bases de dados acessíveis às novas gerações.
Elmar Varjão enxerga nesse ponto um risco silencioso para as organizações. Quando um profissional experiente se aposenta ou deixa a empresa, leva junto soluções para problemas que só aparecem em campo, como a melhor sequência de montagem de uma estrutura ou a leitura correta de um solo instável.
O novo perfil exigido do engenheiro
O domínio técnico de cálculo estrutural, geotecnia e materiais continua indispensável, mas já não basta. Obras de alta complexidade exigem profissionais capazes de interpretar indicadores de produtividade, negociar com fornecedores, gerir contratos e conduzir equipes multidisciplinares sob prazos rígidos e orçamentos controlados.
Em paralelo, a digitalização mudou as ferramentas de trabalho. A Modelagem da Informação da Construção, conhecida pela sigla BIM, reúne em um único modelo tridimensional dados de projeto, custo e cronograma, e exige que o engenheiro saiba trabalhar com informação integrada desde a concepção.
O canteiro como espaço de formação
Como sinaliza Elmar Varjão, a sala de aula sozinha não forma quem vai liderar uma grande obra. Por isso, cresce entre as empresas do setor o modelo em que jovens engenheiros acompanham profissionais seniores em campo, com metas de aprendizado definidas e rodízio entre diferentes etapas do empreendimento.
Esse formato também alcança encarregados e técnicos. Programas internos de capacitação em segurança do trabalho, leitura de projetos e controle de qualidade transformam a obra em escola, reduzindo erros de execução e criando um caminho de crescimento para quem começou na base da operação.
Liderança que forma outras lideranças
Nenhum programa de desenvolvimento se sustenta sem gestores dispostos a ensinar. Nesse sentido, a avaliação de quem ocupa cargos de coordenação passa a considerar não só o cumprimento de prazo e custo, mas também quantos profissionais aquela liderança preparou para assumir novas responsabilidades.
Na percepção de Elmar Varjão, transferir conhecimento é parte da gestão empresarial na construção, e não uma tarefa paralela ao trabalho principal. Empresas que tratam a sucessão técnica como prioridade conseguem assumir projetos maiores sem depender de contratações emergenciais a cada novo contrato.
O que essa tendência muda para o setor?
Para as empresas, investir em formação deixa de ser custo de recursos humanos e passa a ser parte da estratégia de crescimento. A capacidade de disputar obras especiais, contratos de concessão ou projetos fora do país depende diretamente da profundidade das equipes disponíveis.
Para os profissionais, o recado também é claro. Carreiras sólidas na engenharia tendem a combinar experiência de campo, visão de gestão e familiaridade com tecnologia, e quem constrói esse repertório cedo se torna peça central em um mercado que disputa talentos cada vez mais preparados.
