O desenvolvimento acelerado de ferramentas de inteligência artificial mudou a velocidade com que um projeto de decoração sai da ideia para a imagem quase real. Daugliesi Giacomasi Souza, fundadora da DGdecor, acompanha esse movimento de perto, em um mercado que movimentou US$4,3 bilhões globalmente em 2024 e deve triplicar até 2028, segundo projeções do setor. No Brasil, plataformas de renderização por inteligência artificial registraram crescimento de mais de 300% na base de usuários entre 2023 e 2026, tornando comum algo que há poucos anos exigia software profissional, hardware potente e horas de trabalho especializado.
Essa democratização trouxe benefícios evidentes, mas também levantou uma pergunta cada vez mais presente entre profissionais e clientes: até que ponto a tecnologia deveria decidir aspectos que, até pouco tempo atrás, dependiam exclusivamente do olhar humano de um designer? Este artigo apresenta o que a inteligência artificial já resolve bem no design de interiores, onde ela ainda falha e por que a decisão final talvez não devesse sair completamente das mãos de quem entende o espaço e de quem vai vivê-lo.
O que a IA já faz bem no design de interiores
Gerar um render fotorrealista de um ambiente, tarefa que antes exigia softwares como V-Ray ou Lumion e horas de trabalho técnico, hoje acontece em cerca de trinta segundos a partir de uma simples foto tirada pelo celular. Testar diferentes estilos, como japandi, mediterrâneo moderno ou minimalismo orgânico, sobre a imagem real de um cômodo permite visualizar possibilidades concretas antes de qualquer decisão física ser tomada, reduzindo o risco de arrependimento depois de uma reforma cara.
Como assinala Daugliesi Giacomasi Souza, o chamado design comprável representa um dos avanços mais úteis dessa tecnologia na prática, já que conecta diretamente os móveis sugeridos pela ferramenta a lojas reais onde eles podem ser comprados. Essa integração encurta a distância entre a inspiração visual e a lista de compras, um problema que durante anos limitou o valor prático de simulações puramente estéticas geradas por softwares de decoração.
Onde a tecnologia ainda tropeça
Nem todo resultado gerado por inteligência artificial resiste a uma segunda olhada mais atenta, e falhas conhecidas no setor, como cadeiras com três pernas, janelas que somem na renderização ou sombras que desafiam a física, continuam aparecendo em ferramentas menos refinadas. O mercado ficou saturado de aplicativos com qualidade bastante desigual entre si, o que dificulta para o consumidor comum identificar qual plataforma realmente entrega resultados confiáveis antes de investir tempo ou dinheiro na assinatura de um serviço. Nesse quesito, Daugliesi Giacomasi Souza expõe que testes comparativos feitos por especialistas do setor, usando o mesmo ambiente e o mesmo comando de texto em diferentes aplicativos, revelam justamente essa disparidade: enquanto algumas ferramentas preservam corretamente paredes, janelas e proporções originais do cômodo, outras alteram elementos estruturais sem qualquer aviso ao usuário.

Essa tolerância a erros técnicos vem diminuindo rapidamente entre os usuários, que já não aceitam as chamadas alucinações visuais como custo natural de uma tecnologia ainda em desenvolvimento. Ferramentas voltadas a profissionais, capazes de respeitar rigorosamente as linhas estruturais de uma planta ou de um modelo tridimensional enviado pelo usuário, ganham espaço justamente por reduzir esse tipo de inconsistência frequente nas versões mais genéricas do mercado.
Decisão do usuário x sugestão do algoritmo
Boa parte dos algoritmos de decoração analisa padrões de preferência coletados de milhares de usuários para sugerir paletas de cor, layouts e combinações de mobiliário consideradas esteticamente equilibradas. Esse tipo de recomendação funciona bem como ponto de partida, mas reflete tendências agregadas de gosto, e não necessariamente a história, a rotina ou as memórias afetivas específicas de quem realmente vai viver naquele espaço todos os dias.
Como observa Daugliesi Giacomasi Souza, existe um risco real de homogeneização quando decisões de projeto passam a seguir majoritariamente aquilo que o algoritmo identifica como popular entre milhões de outros usuários. Um objeto de família, uma cor associada a uma lembrança específica ou uma disposição de móveis pensada para a rotina real de alguém raramente aparecem entre as sugestões automáticas mais recomendadas por qualquer ferramenta puramente estatística.
Até onde a IA deveria decidir por você?
O consenso que já se forma entre especialistas do setor trata a inteligência artificial como um multiplicador de força, e não como substituta da sensibilidade criativa de um profissional de design. Automatizar tarefas repetitivas, como gerar múltiplas variações de render ou organizar referências visuais, libera tempo que pode ser investido em conversas mais profundas com o cliente e em decisões que exigem julgamento humano.
Conforme sustenta Daugliesi Giacomasi Souza, interpretar nuances culturais, emoções ligadas a determinados objetos e particularidades de cada família continua sendo tarefa que nenhum algoritmo resolve sozinho, por mais sofisticado que seja o modelo por trás da ferramenta. A tecnologia decide bem quando o problema é técnico e repetitivo, como calcular se um sofá cabe em determinada parede ou gerar variações rápidas de paleta de cor, mas ainda depende do olhar humano sempre que a decisão envolve significado, e não apenas eficiência visual ou métrica. No fim, a pergunta não deveria ser se a inteligência artificial vai decidir por você, mas até onde você está disposto a deixar que ela decida no seu lugar.
