Setor cresce apoiado em inteligência artificial, WhatsApp e celular, mas especialistas alertam que a fase de crescimento fácil já ficou para trás
O comércio eletrônico brasileiro entra em 2026 consolidado como um dos mercados digitais mais relevantes do mundo, mas também mais maduro e competitivo. Depois de faturar mais de R$ 200 bilhões em 2025, com crescimento superior a 10% em relação ao ano anterior, o setor caminha para um novo recorde neste ano. Segundo projeções da ABComm, o faturamento deve superar R$ 258 bilhões em 2026, um avanço de aproximadamente 10% puxado pela chegada de cerca de dois milhões de novos compradores e por um ticket médio que deve ficar em torno de R$ 564,96. Já um levantamento da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e E-commerce projeta números na mesma faixa, com cerca de 96,87 milhões de compradores online e um volume de pedidos próximo de 457 milhões ao longo do ano.
Esses números confirmam uma tendência observada nos últimos cinco anos, período em que o e-commerce brasileiro cresceu, em média, 17% ao ano, segundo dados da ABComm. O pico mais expressivo aconteceu entre 2019 e 2020, quando a pandemia empurrou o consumo para o ambiente digital de forma abrupta, com um salto superior a 40%. Desde então, o ritmo de expansão desacelerou, o que é natural em um mercado que deixa a fase inicial de expansão acelerada e entra em uma etapa de maturidade, marcada por mais concorrência, custo de aquisição de cliente mais alto e cobrança maior por eficiência operacional.
Celular e inteligência artificial se tornam protagonistas da experiência de compra
Um dos dados mais relevantes para quem vende online é o peso do celular nas transações. De acordo com levantamento divulgado pela CNBC Brasil, cerca de 79% das compras online no país já são feitas por meio de smartphones, o que reforça a importância de lojas virtuais bem otimizadas para telas pequenas e processos de pagamento simplificados. Ao mesmo tempo, a personalização impulsionada por inteligência artificial se firma como um dos principais motores de crescimento do setor, permitindo que lojas virtuais analisem o comportamento de cada consumidor e ofereçam recomendações, promoções e comunicações sob medida.
Um estudo da plataforma de automação edrone, que analisou o desempenho de centenas de lojas virtuais parceiras, mostra o tamanho desse impacto na prática. A recuperação automatizada de carrinhos abandonados, por exemplo, apresentou taxa de conversão de 1,60%, enquanto as automações de pós-venda, que usam cupons de desconto e recomendações de produtos complementares, alcançaram taxas de abertura de até 43,7%. Já durante o período da Black Friday de 2025, ações de comunicação iniciadas antes do pico de vendas geraram um crescimento de 61% na receita de clientes da edrone em relação ao ano anterior, com destaque para o uso combinado de e-mail, SMS e WhatsApp na comunicação com o consumidor.
PIX e novos hábitos de descoberta de produtos mudam o mix de vendas
A forma como o consumidor descobre e paga por produtos também muda de maneira significativa. Segundo dados da Ebit Nielsen, a busca orgânica no Google segue sendo o canal de menor custo de aquisição, respondendo por cerca de 29% das compras iniciadas na internet, enquanto as redes sociais, com destaque para Instagram e TikTok, respondem por 27% da descoberta de novos produtos, principalmente nas categorias de moda, beleza e estilo de vida. O WhatsApp e o social selling, modalidade de venda feita diretamente por redes sociais e aplicativos de mensagem, também crescem de forma acelerada, especialmente em produtos de ticket mais alto ou de nicho.
No campo dos pagamentos, o PIX segue transformando o comércio eletrônico brasileiro. O meio de pagamento instantâneo já responde por cerca de 30% do valor transacionado no e-commerce nacional, um crescimento expressivo em relação aos anos anteriores, e tende a seguir ganhando espaço por oferecer rapidez e ausência de taxas para o consumidor final. Já entre as categorias de produto, um levantamento da ABComm e da Neotrust mostra que pets lidera o crescimento, com alta de 38% em 2025, seguido por alimentos e bebidas, com 31%, impulsionado principalmente pela expansão do delivery de supermercados e produtos gourmet vendidos online.
Pequenas e médias empresas ganham espaço frente aos grandes marketplaces
Um dado que chama atenção de quem pensa em empreender no comércio eletrônico é o desempenho das pequenas e médias empresas dentro do setor. Levantamento do Mapa da Logística mostra que o valor médio por pedido entre PMEs chegou a R$ 215, um valor cerca de 20% acima do registrado pelas grandes marcas e 43% superior ao dos marketplaces, o maior índice entre todos os perfis de vendedores analisados. O resultado indica que negócios menores conseguem operar com um portfólio mais diversificado e um relacionamento mais próximo com o cliente, o que se traduz em tickets médios mais altos, mesmo sem o volume de tráfego dos grandes players do mercado.
Ainda assim, os marketplaces seguem como o principal canal de consumo digital no Brasil. Uma pesquisa da Nuvemshop em parceria com a Opinion Box, batizada de E-Consumidor 2026, mostra que 70% dos usuários escolhem marketplaces como opção prioritária de compra, atraídos principalmente pela competitividade de preços, apontada por 57% dos entrevistados, e pela facilidade de navegação, citada por 55,3%. O estudo também revela que o consumidor de 2026 costuma combinar diferentes canais ao longo da jornada de compra, pesquisando em marketplaces, redes sociais e lojas próprias das marcas antes de decidir onde finalizar a transação, o que reforça a importância de uma presença digital coerente em múltiplas frentes.
O que esperar do e-commerce brasileiro daqui para frente
As projeções da ABComm para os próximos anos indicam que o crescimento deve continuar em ritmo de dois dígitos até pelo menos 2029, quando o faturamento do setor deve chegar a R$ 343 bilhões. Esse cenário, no entanto, não deve ser interpretado como um convite ao amadorismo. Segundo especialistas ouvidos pela reportagem da Times Brasil, o recado para quem vende online é direto: crescer não vai depender apenas de gerar tráfego, mas de transformar esse tráfego em relacionamento duradouro com o cliente. Investir em automação, comunicação multicanal bem orquestrada e uso estratégico de dados deixou de ser um diferencial e passou a ser condição básica para se manter competitivo em um mercado cada vez mais maduro.
Fontes consultadas:
- https://www.ecommercebrasil.com.br/noticias/e-commerce-deve-faturar-cerca-de-r-260-bilhoes-em-2026-projeta-estudo
- https://mercadoeconsumo.com.br/16/02/2026/ecommerce/e-commerce-cresce-15-no-brasil-e-se-aproxima-de-r-260-bilhoes-em-2026/
- https://edrone.me/br/blog/dados-ecommerce-brasil
- https://timesbrasil.com.br/empresas-e-negocios/tecnologia-e-inovacao/e-commerce-no-brasil-passa-de-r-200-bilhoes-e-vira-mainstream-com-ia-whatsapp-e-mobile/
